terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Crônica #1: Múrmurios avalia-ativos

(Fonte: Arquivo pessoal)
Estávamos fazendo uma prova.

    De português, não muito difícil. Haviam questões de múltipla escolha e dissertativas e eram estas que estavam mexendo comigo, não que eu estivesse com dúvida, mas eu tenho a mania de prolongar desnecessariamente pensamentos ou explicações que são, por natureza, pequenas e por obrigação, tenho que me atentar mais ainda para que meu texto não fique redundante.

    Eu não sei se eu devo ter o dom da escrita, ou sei lá. A questão é que eu amo escrever e além disso, gosto de argumentos. E nestas questões, a interpretação era essencial. Então, imagine, a sala rodeada de respostas, uns que se esforçam, outros que sabem argumentar e escrever com esforço, outros que têm, eu acho, a maldita sorte de criar opiniões e textualizá-las em questão de segundos. E tem eu, que depois disso, descobri ser perfeccionista.

    Como uma boa massa, meus pensamentos vão se construindo na base da modelagem, do escreve e apaga e reescreve, até que alguma frase —  a frase — inicia meu texto definitivo. Algumas vezes ela sai de primeira e outras, demora.

    Enquanto eu preparava minha massa, o murmúrio começou. De um lado da sala de quem não liga para uma prova ou escola — não liga até sua nota estar berlinda — começou com uns risinhos, cochichos, murmúrios e aquele fuxico desgraçado que vai gradativamente se elevando. A professora foi ágil e decepou com um rápido "xiu". Mas esse murmúrio voltaria e não haveria um xiu que o ratificasse. E não seria do meu lado esquerdo, seria ao lado do meu ouvido, acima do meu ombro, na posição perfeita para desequilibrar todo o caminho do meu progresso com as respostas. E para piorar: em uma conversa com a própria professora.

    Qual a necessidade? Se livrar do tédio? Se meter numa conversa alheia? Puxar saco? Provavelmente, os professores do meu colégio tendem a cair nessa metáfora de bom aluno.

    A risada era forçada, a piada era sem graça. Na verdade, aquilo sequer eram piadas, eram apenas comentários dos alunos que estavam conversando com a professora trepados em sua mesa que forçavam-se a rir, simplesmente para demonstrarem a imitação de intimidade que deveriam — ou desejavam — ter com ela.
    Nunca gostei dessa história de amizade com professores. Para mim, essa amizade simplesmente não existe. É forçada, é falsa, é artificial. A risada alta, as piadas internas sem nexo que têm sede de serem expostas para toda a sala, conversas fora da sala ou por redes sociais para assuntos além da matéria prestada, convites pomposos, presentes desnecessários.

    Sério, o que é isso?  Carência ou desespero por nota? Ah, destaque. Favoritismo, não é?

    Pois, é. Essa amizade não existe, uma vez que seu objetivo são apenas interesses extracurriculares. Rá, rá.

    Voltando à prova. Aquilo estava me enfurecendo. Não era inveja do conversa. Na real, por que eu teria inveja de algo que eu desprezo? Eu simplesmente odeio isso.
    Eu queria fazer minha prova, queria raciocinar, e entregar minha prova para receber logo a pontuação, mas não conseguia por causa do fuxico! Os alunos, lá pendurados, já haviam terminado. Gritavam as tremendas facilidades que a prova oferecia.

    Claro que era fácil, afinal, sugar todas as respostas da professora pendurados na mesa facilita tudo, não é mesmo?

    Tinha dúvidas bobas, questão de interpretação, que a professora poderia muito bem me ajudar. Mas, para quê perguntar da professora se os aluninhos poderiam muito bem me responder? Oh, céus, como eu odeio a escola. E, olha, respondiam como se fossem verdadeiros oráculos.

    Eu os ignorei. 

    Mas aquilo não adiantou. Já de volta à minha carteira, meus dedos estrangularam o lápis e a caneta. Meus olhos começaram a arder. Meus pés batiam contra as porta-estandarte inferiores da carteira raivosamente. E não aguentei e segui meu amigo, que também estava enfurecido com a situação.

    Fomos até o final da sala de aula e sentamos nas últimas carteiras das fileiras. Ok, não foi um ação tão rebelde, mas de algum modo, me ajudou a raciocinar. E foi para além das questões, acabei pensando sobre o que estava acontecendo na sala.

    Eu teria que tomar alguma atitude. E seria algo como chegar no meio da sala e gritar a todos que eles eram ridículos e bestas, para pararem com aquela farsa e... Não.
    Não foi isso que aconteceu.

    Finalizei a prova. Cheguei até a mesa da professora e a entreguei o documento, comentando até ela ter em mãos as provas:

    "Não atrapalhei o quanto fui atrapalhada", já que a professora havia antes chamado a minha atenção por um carinho brincalhão de poucos segundos que eu fiz em meu namorado. Ela recebeu aquilo com ironia e escárnio. Lógico que iria, era professora e não admitiria que uma aluna foi prejudicada por suas atitudes. E não só a professora ouviu, seus ouvintes me ouviram também.

    Minha voz saiu tremendo, mas com confiança. Minha vida segue o lema de se arrepender de ter  feito algo a se arrepender de não ter o feito, logo, eu precisava ter feito aquilo. Dito isso, fui para casa sem pedir permissão para me retirar  da sala.

    E essa minha pequena atitude parece ter surtido algum efeito, eu acho: uma vez que, os alunos que antes exageravam com altas gargalhadas, continuaram com isso. Mas deixaram a relação deles com os professores como elas deveriam ser desde o princípio: íntimas.

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